terça-feira, 20 de julho de 2010

In Compatibilidades

Em "Cidade dos Anjos", o filme, existe uma cena onde a médica e o anjo escolhem frutas. A um anjo  não é permitido sentir o sabor dos alimentos ou o prazer, então ele pede a ela que descreva como é saborear uma pêra. 

É uma sacada maravilhosa do filme, é praticamente impossível para quem assiste ficar do lado de fora da tela nesse instante: Ela explicando, ainda que não tenha entendido direito o sentido da pergunta, e ele buscado desesperadamente entender o que ela diz. 

É um momento que silencia todo o universo: quando duas pessoas de mundos tão absolutamente diferentes, com razões e propósitos perfeitamente dissociados se abrem à possibilidade do entendimento...

Pra momentos como esse, sempre haverá memória. 

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ainda é cedo...

(Kywsy Santos)

Esse é o problema dos amigos imaginados,
são perfeitos, honestos, confiáveis,
pelo menos bem intencionados...

Imaginar um amigo implica esperar sempre
que ele dê o seu melhor, e que ele espere e
também confie que é exatamente isso que
a gente está fazendo...

Não dá pra imaginar um amigo que espera de
você propostas medíocres, delírios insanos,
pobreza, vilania...

Não dá pra imaginar um amigo que não cuida,
que não respeita e tão pouco se importa com
a nossa individualidade...

Alguém que transforma uma vivência única em
podridão e dor, e um amigo em algoz, está
longe de ser chamado de amigo...

é uma vítima profissional.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Deserto

por Kywsy Santos
Caminho por uma trilha estreita no meio da mata. Choveu recentemente e, à medida que desço, um fio de água acompanha meus passos. O passo é cadenciado ao rítmo da respiração. O passo, as pedras, a folhagem espessa, tudo se mistura e se transforma à medida que avanço. Existe uma certa pressa, preciso estar lá antes que a próxima onda me alcance. Existe um cheiro de vida no ar, um verde indecentemente despido, um brilho em cada folha orvalhada... como o suor que me escorre... Não posso divagar, preciso estar lá antes que... Me apoio em um cajado improvisado, o peso que levo nas costas me ajuda a descer mais rápido, às vezes rápido demais. Um grupo de macacos me observa do alto, depois se vão, alguns pássaros e lagartos também, não é comum tanta pressa rasgando essa vegetação adormecida. As folhas debruçam-se sobre o meu corpo como a pedir que reconsidere, tocam minha face, sussurram, vejo uma pequena orquídea... A decisão já foi tomada - prossigo. Não sei se choro, não, não é necessário. O coração disparado já se expressa claramente em meus olhos, na minha boca ofegante, na respiração, no suor... Estaria suando, ou fora a chuva, a mata, as folhas, o cheiro de vida? Apresso o passo, um pássaro cantou ao longe, as aves estão voltando para o ninho, entardece rápido. Preciso correr, na mata fechada a noite desaba sobre nós sem avisar. Preciso chegar... aumento o rítmos dos meus passos, as pernas fraquejam, "tombo como uma árvore", levanto, ajusto o corpo - prossigo. Só preciso atravessar a linha, chegar do outro lado, e... Falta pouco, eu sinto a sua presença agora muito mais próxima... O fio de água me deixou há algum tempo, a mata ficou pra trás com seus animais, suas folhas e cada pequena flor a ser descoberta... Agora corro. Mais rápido, mais rápido... a vida não devia oferecer um sonho que não se pode alcançar... Corro mais. Está perto, quase posso tocá-lo... A linha ficou pra trás, a onda nunca mais me alcança. Olho ao redor, nada. Nenhuma respiração além da minha. O vazio se estende por toda parte, por todos os tempos. Não há mais nada, não há sequer memória do que ficou pra trás. Prossigo.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O que você não disse...

por Kywsy Santos
Dei pra observar silêncios, vazios, vácuos e ausências...
Faz tempo que presença de coisa nenhuma tem me ditado longos monólogos, cheios de significância. De tudo que foi dito, traço apenas um mapa de linhas e contornos indecisos, que há de ser preenchido e decodificado a partir de tudo o que falta: o olhar, o sentimento, o porquê... o momento, o contexto, a intenção... a forma. O que não foi dito, o que era proibido dizer... o objetivo final. O que não foi levado em conta... o que não foi considerado... o que não era importante... o outro. Decodificar intenções e sentidos vaporosos deixou de ser um jogo inocente, divertido, para se transformar num exercício compulsivo que já não diverte e, vez que outra, me apavora. Todas as intenções deveriam ser faladas, explicadas, nuas, do jeito que vieram ao mundo, para que o silêncio não lhes impuzesse uma máscara horrenda, irreversível... É esse silêncio que me assombra agora, que sugere mentiras e "intenções que tu jamais lhes deste"... E se, por um lado me parece claro e até mesmo óbvio o seu discurso, por outro, me resta um sussurro distante, uma lembrança, uma fotografia desbotada pelo tempo, que sugere em estertores: Confia!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Nossa Verdade

Kywsy Santos

Trabalho, 90% de suor, 10% de inspiração... Tempos Modernos. A crítica ao modo de vida capitalista, no entanto, não embota o valor da dedicação disciplinada a um ideal. Não há dúvidas de que a prática aperfeiçoa. Ela não é um pré-requesito para a genialidade, mas não se pode negar a potência que confere aos gênios que a adotaram. Tenho convivido com um geniozinho que insiste em questionar meu método inspirado, irregular e indisciplinado, quase esotérico, de produção cultural. Tenho que reconhecer que existe um pouco de verdade no argumento infeliz da repetição mecânica, ritmada e objetiva de um processo: a verdade dos Xamãs. Uma verdade que também se apóia em ritos e repetições, verdade universalista, de quem olha além do que se pode ver. Eureka! Acho que encontrei a chave que une nos dois processos criativos. Aí, geniozinho, a magia há de invadir o centro de pesquisa...
Êia, êia, êia, hê... Êia, êia, êia, hê... Êia, êia, êia, hê!...

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Promessa de Anjo





















por Kywsy Santos

Hoje recebi uma notícia feliz / Falava de um amigo que mora distante / desses amigos que estão perto / onde quer que estejam // O Tempo te trouxe de volta numa moldura belíssima // O que se espera de um anjo é que esteja bem e seja muito feliz / e a minha vida floresce e frutifica a partir dessa moldura // Tua conquista me inspira / ser feliz é possível/ provável/ necessário/ obrigatório // Agora / mais que nunca / estou no caminho e / em breve / se Deus quizer / te mando uma notícia feliz// Obrigada por ser feliz!!!

sábado, 15 de maio de 2010

Adoração

por Kywsy Santos

Ganhei um dia, um dia de significância duvidosa, que me permite prevê uma série de acontecimentos, ou relacioná-los com uma temática predeterminada, iconográfica e rica, embora nem sempre alcance o significado de sua composição ou a relevância de sua proposta e, menos ainda, o emaranhado de ações e escolhas que possam ter lhes dado origem ou direção.

Esse brinquedo que teimo em decodificar oscila entre um inocente quebra-cabeças e um enigma ameaçador que precisa ser desvendado. E, por algum motivo obscuro, apavora-me a idéia de não possuir a chave. Busco caminhos, e desconfio deles. A vida é frágil, a sanidade é fugaz, e o conhecimento pode ter um modo grotesco de se revelar que põe em risco ambas as propostas.

Busco a suavidade necessária, a delicadeza de que me despi quando fui tocada pela dor: A delicadeza da fé. Ontem vi um pássaro no chão, com as asas abertas e o rosto voltado para o céu, os raios de sol complementavam aquele quadro de sublime adoração... Por outro lado, uma cena assim tão rara me sugeriu uma outra explicação: "Ele pode estar sentindo dor"...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O Papel dos Relacionamentos

por Kywsy Santos

Li o livro de Paulo Coelho, "Ás Margens do Rio Pietra Eu Sentei e Chorei". Li tão rápido que fiz chorar de ciúmes minhas apostilas rasuradas. Depois chorei uma tarde inteira longe desse calhamaço de papéis que, ao longo dos anos, têm se tornado a minha mais terna companhia. Indiferentes às minhas preocupações ecológicas, pilhas e pilhas de papel têm ocupado papéis e espaços relevantes em minha vida.

Com eles me relaciono dia e noite, não com meus vizinhos, colegas ou amigos, apenas com eles. Mesmo a família, única a desafiar este exílio, é constantemente submetida à tirania dessa relação. E se alguém, ou algum evento, teima em requisitar minha estimada companhia, sempre haverá um papel e com ele uma obrigação inadiável que justifica plenamente a minha reclusão.

Em meu quarto, em minha cama de casal, me acostumei a dormir num espaço apertado como um colchonete. Ao meu lado, apostilas, agendas, cadernos, livros, revistas, e outras publicações ocupam o lugar sagrado da minha cara metade. Sabe, acho que descobri um dos meus escudos. No caminho pra libertar esse meu coração "Maluquiiiinho", a boa notícia é que um escudo de papel não vai resistir a uma boa chuva... E o inverno está só começando.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Nada comigo...



por Kywsy Santos


Quero chorar desesperadamente
essa pressão em meu peito
reclama o seu espaço

Quero chorar por horas a fio
deixar a dor se expressar
até se consumir

Depois voltar à beira do riacho
e olhar o menino pescando
de azul e amarelo...

É isso que eu quero.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

In Possible

por Kywsy Santos

Eu já sabia que o tempo não existe, me foi dito em um sonho e me pareceu uma verdade inexorável, mas, o espaço... e a possibilidade de transpor os seus limites tão definidos, surgiu hoje enquanto lembrava da tua figura fazendo o caminho inverso do corredor. Alguma coisa, no jeito distraído de andar, nos passos que não foram previstos por quem organiza filas, me fez pensar que talvez exista um meio de ultrapassar os limites do espaço e do tempo, de circular livremente entre dimensões e gerações. Não necessariamente um portal, a idéia de portal carrega todos os vícios limitadores do espaço e do tempo e está repleta de impossibilidades...
Alguém disse uma vez que as palavras não se perdem, tudo que dissemos através dos séculos estaria em movimento na atmosfera terrestre desde sempre e para sempre - os gritos , as súplicas, as palavras de carinho, as maldições, os delírios, as juras de amor, a poesia - todas circulando à nossa volta, à procura de uma antena que as decodifique. E se alguns, por um capricho do destino, pudessem perceber esse sussurro... Como isso influenciaria a forma como pensamos o mundo hoje? Qual seria a nossa visão sobre 'direitos autorais', por exemplo? E sobre os fatos obscuros da história?
Loucura? Sei lá! Apenas pensando in possibilidades...

terça-feira, 20 de abril de 2010

O Relógio do Tempo

por Larissa

Neste momento, duas crianças brincam perto de mim, um neném (menina) e um menino de aproximadamente dois anos, e apesar de o menininho ainda não saber nada da vida, tem um cuidado e um carinho imenso por ela.

Ah, como é bom ser criança! Ele ri tanto com esse simples fato! Naquela época era tudo tão fácil, tudo era pureza, alegria e simplicidade. O menino é bem danado, mas seu instinto com ela é diferente, perto dela ele tem um cuidado enorme com a menorzinha.

Se você quer ver a diversidade das pessoas, vá a um aeroporto! Lá você vê claramente pessoas de todos os tipos e idades. Enquanto eu observava a brincadeira das crianças, tinha uma senhora sentada ao meu lado lendo o que eu escrevia. Muito simpática ela mas me parecia familiar, me lembrava Monique, a senhora que eu e minha mãe inventamos em uma história.

Ela foi embora me deixando na dúvida, não tive coragem de perguntar o seu nome, mas prefiro esse mistério mesmo, dessas peças que a vida prega na gente. Procuro guardar a imagem daquela figura, que para mim, sempre será Monique, esperando com suas malas pelo seu próximo destino.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Fica...

por Kywsy Santos

Como se diz para alguém que a sua voz me acalma,
Que a sua simples presença alivia minha alma,
Como eu vou dizer que eu não planejei...

Que não me sinto segura,
E mesmo assim acontece,
Que não depende de mim...

Que eu te quero bem,
Fica sim...

terça-feira, 16 de março de 2010

Ma_Linha do Tempo

por Kywsy Santos
Uma facilitadora, de um desses cursos de desenvolvimento de pessoal, uma vez pediu que fizéssemos uma linha do tempo de nossas vidas: Devíamos anotar de cinco em cinco anos, nessa linha, um fato que houvesse nos emocionado positivamente e outro, que marcasse por ser negativo. As nossas linhas negativas foram sendo preenchidas rapidamente, até percebermos que as lembranças positivas eram inexistentes, raras ou, pelo menos, mais difíceis de serem acessadas. Lembrar de um fato positivo a cada cinco anos de nossa vida parecia uma tarefa difícil para a memória, mas, à medida da nossa persistência, essas lembranças chegavam, tímidas, ao papel. A professora explicou que, diferente do que parecia, certamente havíamos vivido muito mais momentos bons que momentos desagradáveis. A reação à dor, ao medo, ao sofrimento, entretanto, provocava um registro mais forte na memória, como um sinal de alerta que nos protegeria no futuro de um fator de risco semelhante. Para mim, a questão talvez não seja necessariamente biológica, talvez também pese sobre nós a responsabilidade pelo que lembramos. Estamos assim tão distraídos, tão leves, quando somos felizes, que simplesmente esquecemos de registrar essas marcas, esses momentos de pura luz e, no presente, ter acesso a essas informações pode ter um valor inestimável. Dar mais valor ao que nos aquece e menos importancia ao que nos machuca, nesse contexto, parece muito bom. Lembra uma frase sem autoria que encontrei um dia:
"Não leve a vida muito à sério,
você não vai sair vivo dela, mesmo".

Fonte das imagens:
1.bp.blogspot.com/.../s1600-R/75402779.jpg

historias.net63.net/peter%20pan.htm

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Silêncio de Rede

por Kywsy Santos

A casa tem abrigado um silencio impertinente,
silencio de lábios desprovidos de ouvidos que lhes confiram sentido,
silencio de paredes pálidas e indiferentes,
mesmo a rede achou de me negar os seus costumeiros gemidos...

Ter dois cérebros, dois braços, dois olhos... enfim, dois lados que não se bastam. O relacionamento, o outro, o momento que se vive em companhia de alguém... Talvez o inferno se pareça mesmo com um paraíso que não pode ser compartilhado. É o olhar do outro que dá sentido à nossa existência. Alguém disse que "o inferno é o outro" - eu lhe diria que sem o outro, não nos resta nem mesmo o inferno.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Lembranças de Mar

por Kywsy Santos
A primeira vez que eu vi o mar, a primeira vez que eu me lembro, voltei pra casa com uma sensação mágica e com uma mágica muito real em mim que levou algum tempo pra sumir: Toda vez que fechava os olhos, via as ondas quebrando na praia...
Eu devia ter nove ou dez anos. Só me lembro de retalhos daquele dia, uma imensidão de areia, um dia bem claro, uma menina olhando o mar... Sei que minha irmãzinha estava comigo, por um comentário bobo que ela fez e que fez todos sorrirem: alguém havia botado sal na água...
Mas, além disso, mais nada. Nem do mar, o verdadeiro, eu consigo me lembrar. A imagem mais forte em minha mente é aquela que eu conquistei, abrindo e fechando os olhos no caminho de volta pra casa: o movimento mágico das ondas do mar.
Cíclica a vida, meu namoro com o mar se repete a cada nove ou dez anos: poucos anos antes de vir para o norte, ainda um bebê, enquanto meus pais tomavam banho de mar, eu ficava sobre uma toalha na areia da praia, guardada por um cão pastor alemão treinado e pronto para o ataque, Zago, minha primeira babá; aos nove ou dez anos, o encontro mágico que acabo de narrar e, entre alguns sufocos, caldos e marias-farinhas, um namoro de mãos dadas ao luar; aos 19, passamos um ano inteiro próximos, eu e o mar, e quando eu ia para o estágio ou para o colégio sempre escolhia o lado do ônibus que me deixaria vê-lo, ainda que por um breve momento. Nessa época eu sonhava em tomar banho de mar à noite, era uma sensação maravilhosa aquela do sonho. Tanto comentei, tanto pedi, que minha mãe acabou deixando, um dia quando acompanhávamos um bloco de Carnaval. Nessa noite, com apenas uma palavra posso descrever o fim daquela fantasia: frio. Muito frio e muito vento. Não houve namoro ao luar aos 19, conheci alguém, mas, antes do mar tive que ir embora. Ele me levou até a parada do ônibus naquela noite. Havia chovido e o asfalto refletia seu vulto quando o ônibus se afastou. No peito pesava a dor de haver perdido algo que ainda não era, mas poderia ter sido. Não preciso fechar os olhos para ver o vulto dele imóvel, se afastando enquanto o ônibus partia...
Esse mar pernambucano, eu só voltei a ver de passagem, quando voltava pra casa com meus filhos, já perto dos trinta. Estranho sempre termos nos encontrado em momentos cruciais, de mudança e de partida. Aos trinta, pela primeira vez, eu realmente queria estar ali, sentia saudades, me identificava de alguma forma com aquele povo e, justo nesse momento, eu estava apenas passando. Namoro difícil esse nosso... Cheio de histórias...
Verdade que sinto saudades e que, até ter escrito essas linhas ainda não havia percebido que o tempo passou e, agora, aos quarenta e tantos anos... seria bom revê-lo... seria bom.


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pensamento Meu


Biblioteca da Pousada dos Anjos em Cunha

por Kywsy Santos
Em algum momento do passado, posso me ver como uma versão feminina do "Visconde de Sabugosa" de Monteiro Lobato: uma menina perdida na biblioteca particular de seu pai, se alimentando de tudo que encontrava, fazendo dos livros pontes para se conectar com um universo bem menos acessível. Como essa prática se perpetuou por longos anos e nunca me ocorreu que fosse relevante saber exatamente 'quem disse o quê', posso facilmente confundir a origem de tudo que veio até mim. Também me assusta grandemente a idéia de confundí-los com meus próprios pensamentos.
Para diminuir este problema, peço a quem lê meus textos que me corrija se observar algum erro dessa natureza. O e-mail do blog é: palavra.kyw@gmail.com . Eu ficarei grata pela sua colaboração. Seria muito generoso de sua parte.
Generosidade...
Merece um texto próprio, concorda?


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

"Tu te tornas"...

por Kywsy Santos

Eternamente responsável...
O dilema de segurança do Pequeno Príncipe...
Eu posso aceitar o amor, me envolver e sofrer amargamente com a sua partida, ou posso ignorar, fugir, negar sua presença iluminada e terei a sensação de que não sofrerei...
...por todos os dias dessa vida morna e sem graça...
Ah! Ainda tem os ritos. Esses são mais difíceis para mim, sempre foram...
Mas, parece que, se eu não estou disposta a aceitar as limitações desse mundo estranho, esse mundo estranho, só de birra, não parece disposto a aceitar as minhas...
A parte mais difícil é fingir.
Quando eu quero, eu sei que eu quero, meus olhos declaram que eu quero, meu corpo fala, meus pés me guiam inexoravelmente ao meu objetivo e tudo em mim me denuncia... Parece injusto calar, parece injusto passar.
Mas, existem os ritos...
ODEIO OS RITOS!!!
E não consigo deixar de amar as raposas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Estrofe

















por Kywsy Santos

Passei de novo pela velha estrada


Que une o meu caminho ao teu caminho

E os nossos dedos quase se tocaram

E os nossos passos ainda negaram

O abraço urgente, o afeto evidente

Que une o meu passado ao teu passar


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

História Inacabada...

Kywsy e Larissa
Em 26.11.2009

O vento soprava forte no asfalto fazendo subir redemoinhos de poeira. A velha crequelenta permanecia sentada do outro lado da rua, usando a banca do bicho como disfarce para espionar cada detalhe dos retalhos de vida que apareciam e desapareciam a cada instante na encruzilhada 16.
Monique suspirou... Percebera agora o quanto a sua vida havia passado sem que houvesse feito algo de que gostasse. Culpa do medo, pensava ela, sua timidez extrema a havia impedido de viver, de arriscar. Essa foi a primeira vez que ela sentiu o vento acariciar sua face, agora cheia de marcas de uma vida cansativa. Antes ela tinha tantas preocupações fúteis sobre como fugir da realidade que nunca havia se deixado tocar pelo que a cercava. Nenhum amor de verdade, nenhuma amizade verdadeira... Ah, Fernando... Ele sim foi real, ele ainda conseguia faze-la suspirar mesmo depois de tantos, mesmo depois de tudo que aconteceu.
O medo, culpa do medo, pensou novamente com um suspiro maior...
O táxi chegou, interrompendo os seus pensamentos. Monique pegou a mala, parou por um instante para verificar se havia esquecido algo importante no balcão, nada... Monique pegou a mala e partiu.

A cena já havia se passado mil vezes na sua cabeça: ela, finalmente, teria coragem suficiente para pegar sua mala e partir – abandonar tudo, deixar tudo para trás e ir em busca de um futuro novo, desconhecido. Fazer novos amigos, ver novas paisagens, novos modos de enxergar o mundo, talvez, em algum lugar, as pessoas se parecessem mais com ela e ela se sentiria finalmente em casa, acolhida, aceita.
Talvez encontrasse... alguém.
Não, não... Estava novamente depositando a sua felicidade nas mãos do outro, esperando que um ser mágico apareça e resolva com um gesto sensual tudo que ela levou anos para estragar perfeitamente e, assim, curada de si, seriam “felizes para sempre”, simples assim, felizes para sempre...
Que lixo! Se sua vida dependesse de sua criatividade, estaria perdida! O táxi ainda nem havia chegado no aeroporto e ela já estava assim, perdida nesse conto de fadas amaldiçoado dos infernos...
(continua)...

sábado, 21 de novembro de 2009

Pluma Azul

por Kywsy Santos
Ele não sabia, mas, cada passo seu que cruzava o caminho dela deixava um rastro de luz perdido, flutuando como uma pluma no mundo escuro e profundo que ela havia escolhido para si. A primeira vez, ela tentou soprá-lo pra longe, mas o rastro esquecido brilhava, flutuava, girava, e permanecia. Então ela resolveu esquecê-lo, ignorar o rastro azul até que ele se desfizesse. Ignorar sempre dava certo, tudo some quando é ignorado, até a luz teria sumido, mas... Ele atravessou novamente o seu caminho (provavelmente ignorasse o risco, ou fosse cego, talvez). Passou essa e muitas outras vezes e, como sempre, deixava um rastro de luz azul, insistente, flutuando em sua sala. Até que o brilho de todos esses instantes distraídos não pode mais ser ignorado e ela passou a esperar pelo próximo brilho, pela próxima pluma azul. A esperar como uma criança. Talvez, esse seja o verdadeiro sentido da palavra "esperança": esperar como uma criança.
A luz, que agora se apossava de cada espaço relativo da sua existência, produzia uma sensação de aconchego, quente, gostosa, que ela não se lembrava, mas tinha certeza que já havia vivido. Sentiu vontade de pisar o mundo inteiro com pés distraídos que deixam rastros de luz. Sorriu. Percebeu que sorria outra vez, então sorriu novamente, agora, porque descobriu que ainda podia sorrir. As plumas brilhantes começaram a dançar como se um vento forte as sacudisse por todos os cantos da sala, mas não havia vento, só luz, e ela dançou e flutuou com as plumas, como se estivesse no céu. Ela celebrou esse momento.
Estava sorrindo ainda quando ele chegou. Contam que ele se aproximou devagar, com passos indecisos e um olhar diferente. Havia passado tantas vezes naquele mesmo ponto e jamais havia percebido tanta luz. Sentiu-se traído, compartilhara tudo que havia trazido consigo e havia recebido tão pouco... Ela não viu quando ele recuou e pela primeira vez desviou do seu caminho. Não soube que havia se tornado uma estranha no mesmo instante em que se havia descoberto tão igual a ele. Continuou sua dança até perceber que sua espera era em vão. Sentiu medo. Um vento frio soprou em suas costas. O frio pedia que se abrigasse, o medo, que se escondesse.
Contam que ele ficou mais arredio a cada dia, o tempo todo estudando, o tempo todo trabalhando. Quando sumiu, ninguém percebeu ou sentiu muito a sua falta. Até que um dia, enquanto rabiscava uns versos, ela passou. Havia tanto tempo... Ele nem lembrava direito. O que ela dissera mesmo? Oi? Passou como se nada houvesse acontecido, do jeito que veio, se foi. Ele não queria lembrar. Tentou ignorar sua presença nessa e em todas as vezes em que ela passou, mas não conseguiu, havia algo estranho nesse passar, cada passo dela que cruzava o seu caminho deixava um rastro de luz perdido, flutuando como uma pluma no mundo escuro e profundo que ele havia escolhido para si.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

As palavras se criam sozinhas...

por Kywsy Santos
Não é como um jardim, é como a mata virgem: as palavras se criam sozinhas, nascem espontaneamente empurradas pela vontade desesperada de vencer a impossibilidade, o terreno estéril, a falta de sol...
Se alimentam do impossível, resistem às ausências, esperam secas pela próxima chuva - resistem.
Depois, é florecer, frutificar, gerar sombra e, ainda que não se alcance a promessa exuberante da semente, a vida acontece. E o processo - o caminho que se trilha, as trocas, o apredizado, o amor - pode ser tão rico, e é tão peculiar, que a gente pensa que jamais poderia ser escrito de outra maneira, e a gente pensa até que o texto é nosso...